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LÁ NO MEU SERTÃO...
Publicado em 18/08/08 às 13:40
Confira o artigo assinado pelo advogado e mestre em Educação, Inácio Feitosa Foto da notícia: Vinhos, bombons e saúde na Semana Gastronômica

Certo dia, com dez anos de idade, na Fazenda Jatobá - lá em Monteiro, na Paraíba - ouvi uma história sobre o sertão. Nunca mais esqueci. Hoje, homem feito, lembrei-me do caso.

Já era noite de lua, na casa do morador da fazenda, ao lado da Casa Grande de meus avós. Deitavam-se eu e meu pai nas redes da varanda, somente para ouvir os causos de Zé Preto. Ele, o caseiro, tinha perdido a mão na máquina de cortar agave. Preto da cor de carvão, sua língua continuava intacta naquela noite fria de julho.

Falava-se do sertão e de seus acontecidos. Zé Preto lembrou em certo momento de uma assombração que existia na estrada velha da fazenda. Dizia que era uma alma amiga, desde a infância lhe prestava favores. Toda vez que estava com alguma dificuldade, a alma aparecia, dava-lhe um conselho e, no outro dia, sua vida estava resolvida.

Um matuto indagou Zé Preto, perguntando-lhe: - Zé... e essa alma era amiga mesmo? O que você fez para merecê-la, então? Zé Preto, grosso, lhe respondeu: - é a alma penada do sertão; É o único amigo que posso contar. Os amigos vivos são imperfeitos. Só querem ganhar de mim. Ela é a única que me serve, dia e noite, faça chuva ou faça sol. É só chamar que ela vem. Zé continuou: - quer vê? Rezou um pai nosso, duas aves Maria e disse lá umas palavras que não entendi bem.

Em segundos, a luz da casa apagou-se. O gerador de energia não mais funcionava. E de Zé Preto só tínhamos os dentes e os olhos. Uma voz forte surpreendeu todos nós, perguntando o que Zé Preto precisava. E ele disse: - Nada, apenas mostrar que você existe. Essa voz foi logo dizendo: - Zé, sou seu amigo, mas você não precisa fazer nada para eu continuar ao seu lado. Sua amizade é de graça. Um amigo serve ao outro sem ele saber. É só chamar que estarei ao seu lado. E a voz foi diminuindo a tonalidade aos poucos até sumir.

Depois a luz chegou, todos mudaram de assunto e foram dormir. Mas, o causo nos faz refletir sobre a importância da amizade. Amizade é, pois, a reciprocidade desinteressada, o não-distanciamento que nos traz conforto, a alegria alheia comprometida conosco e satisfeita em nos assistir e em nos cumprimentar. O amigo verdadeiro é aquele que serve ao outro nos momentos em que mais precisamos dele. Pelo menos o verdadeiro amigo. E que também nos chega quando não precisamos de algo. Apenas chega, apenas nos visita gratuitamente. Bate à nossa porta despreocupado e nos abraça com calor humano.

Então definir a palavra “amigo” acaba sendo uma tarefa difícil. Para mim, o legítimo amigo nos enriquece, deixando-nos o prazer de intercambiar, com palavras, todo esse sentimento forte e harmonioso de afeto que, infelizmente, é raro entre as pessoas. A amizade por interesse não é amizade; é negócio. Prefiro lembrar de Zé Preto, do meu sertão e daquela alma amiga nas veredas da vida.

INÁCIO FEITOSA é Presidente da Comissão de Cultura da Faculdade Maurício de Nassau e advogado.
(inacio@esbj.com.br)

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