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Depoimento da Jornalista Silvia Bessa
Publicado em 22/06/09 às 17:49
Artigo publicado por Silvia Bessa, no jornal Diario de Pernambuco, no dia 19/06/2009. Foto da notícia: Vinhos, bombons e saúde na Semana Gastronômica

Sou jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco há 12
anos. Em todo esse tempo não fui outra coisa a não ser repórter -
aquele que tem a tarefa diária de caçar notícias. Já fiz milhares de
entrevistas e sei o quanto as técnicas de abordagem, de redação e as
noções de ética me valeram. Por esse motivo, me indignei com a decisão
do STF de dispensar o diploma para o exercício da minha profissão.
Usei cada lição aprendida e tento aprimorar uma a uma ao longo dos
anos. Procuro isso em conversas com presidentes, governadores,
deputados no Recife e em Brasília ou com anônimos dos confins do
Nordeste. Do presidente Lula da Silva à dona de casa Lucimar da Silva,
que passa fome no Ceará, foi assim. Com o pé na estrada, descobri que
a prática do ofício de um jornalista não se limita à discussão em
torno da liberdade de expressão.

Opinião todo mundo tem, pode e deve expressar, mas o jornalismo está
alicerçado em informação de qualidade. E, para chegar até ela, é
necessário mais que uma opinião. Tive a certeza disso nessa
quarta-feira, quando soube da votação do STF e lembrei do quanto
difícil foi produzir reportagens sobre uso da internet nos grotões
nordestinos, sobre o impacto do aquecimento global ou mesmo sobre a
malversação de subvenções sociais por deputados. Fiquei imaginando se,
mesmo com a capacidade que devem ter para chegar ao Supremo, os
ministros teriam condições de fazer qualquer uma delas. Talvez
pudessem comentar os temas; testemunhar ou revelar uma realidade vista
de vários ângulos, tenho cá minhas dúvidas. E é para isso que
jornalistas são formados.

Para ser jornalista é preciso talento com as letras, habilidade para
coleta de múltiplas informações, disposição para pesquisa, abertura
para ouvir o engravatado, o professor e o descamisado e equilíbrio
para narrar os fatos. Reunir essas e outras características independem
do diploma, mas o aprendizado acadêmico pode ser decisivo na
conquista. A escola é o ponto de partida para o bom jornalismo. Eu não
vejo médicos, advogados, professores e outros profissionais com
didática suficiente para enviar mais de cem e-mails para conseguir
mapear os municípios do Nordeste que possuem lan houses com discagem
rápida, para buscar e cruzar dados para entender fenômenos sociais e
para entrevistar dezenas de adolescentes e entender o que eles buscam
na rede - algumas das tarefas que cumpri para realizar a reportagem
sobre o fenômeno das lan houses no interior do Nordeste. Não vejo. Só
consigo ver estudantes recém-saídos das faculdades tentando acertar
esse caminho e dispostos a seguir o preceito da informação
democrática. O resto, para mim, é vaidade de muitos que não conseguem
perceber que o fim do diploma para jornalistas compromete o futuro de
uma geração nova de profissionais da imprensa. E tem a ver com a
confiabilidade do que será escrito por eles.

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